A valer-nos da 'meticulosa geometria do nada' engendrada pelo poeta português Herberto Helder, devíamos - perante a tropelia pós-moderna - ter precisão de perscrutar o enigmático dramaturfo Otacílio Melgaço tal e qual, a deitar contas ao tempo, a personagem de 'Os Pasos sem Volta' que faz, 'com o inexplicável ardor de quem se inicia na eternidade', uma 'viagem sem fé, inconseqüente', 'possuído pelos dons infernais com que se cria um estilo sem tempo nem lugar'? Ou, exculpatório de uma literato-etnografia demiúrgica em si mesma, prescindia das palavras a, como maiêuta, pairar por uma ‘lévi-straussiana’ espaço-cronologia intermediária: ‘aquém do pensamento e além da sociedade’?
É mister que nos dediquemos a uma postura propedêutica diante de sua 'incógnita' obra, a mimetizar a nós radicalmente em confessas vítimas do ontológico e vital ímpeto de nos reportar, em bom agoiro, à Antiguidade.
‘Na Grécia antiga o teatro estava indissoluvelmente ligado aos ritos religiosos. Os espectadores reuniam-se muito antes do nascer do sol. Ao raiar da aurora, os sacerdotes entravam em cena fazendo uso de máscaras. O palco, assim como um pequeno altar nele colocado, ficava iluminado pelo sol. O sangue do animal imolado era recolhido num prato enorme. Um sacerdote com uma máscara divina, dourada, mantinha-se escondido atrás de outros sacerdotes. Depois, quando o sol já ia mais alto, num momento preciso, dois dos sacerdotes erguiam o prato a fim de que os espectadores pudessem ver a máscara divina, dourada, refletida no sangue. Uma orquestra de tambores e flautas tocava, e os sacerdotes cantavam. Por fim, o sacerdote oficiante baixava o prato e bebia o sangue’.
Façamos sintomática analogia a partir de uma história ‘afro-carnívora’ narrada pelo mesmo Helder: ‘A história foi colhida algures, de leitura, e respeita a uma tribo que sepultava os seus mortos no côncavo de grandes árvores. As árvores, a que tinham dado o nome do povo: baobab, devoravam os cadáveres, deles iam urdindo a sua própria carne natural. Pelo nome tirado de si e posto na alquimia, a tribo investia-se nas transmutações gerais: a morte levava o nome, e o nome, activo e tangível, crescia na terra. Emocionam-me a fome botânica e o triunfo das copas, o empenho tribalmente mágico, regrado pelo insondável entendimento das metamorfoses da carne no esquema orgânico da matéria. E apanho aqui o símbolo: uma imagem de si mesma, uma imagem absoluta, universal, devora esta gente, e esta gente põe a assinatura na imagem devolvida ao mundo. É quase tudo o que há para dizer no plano prático da poesia’.
Pois pois! No plano
vaporoso do teatro de Otacílio Melgaço - que se nega a jogar o jogo das
escondidas - o mesmo ocorre... Ébrios de nosso próprio e ritualístico sangue,
somos absoluta imagem de nós mesmos - a amadurecer-nos a nós - por meio da
especularidade de tal ‘devoração’ que é amante da soledade? e resplandecida ad
hoc. Afinal das contas, se ‘a substância de alguém que pôs a mão no fogo é igual
à substância do fogo enquanto grita’, ‘a substância de um homem e de uma
estrela’ é, em sua essencialidade, ‘a mesma’.
C’est un droit qu’à la
porte on achète en entrant!
Gabriel Salgueiro
(Lisboa,
Portugal)
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